segunda-feira, 9 de março de 2009

Parabéns, amiga!

Não posso deixar de comemorar os 50 anos da figura feminina que se manteve sempre jovem e glamourosa, que se renovou constantemente, que sempre fez tudo o que quis, radical, terna, multifacetada, alvo de polémica e estudos científicos, que me ensinou a desenhar e que foi a minha companheira inseparável de infância. A Barbie, claro.

Lembro-me da primeira e única Barbie que tive durante toda a minha infância, de andar a namorar a boneca, que era cara como agora não é, durante os 6 meses do meu aniversário ao Natal, de ir com a minha mãe à loja de brinquedos, que também era a papelaria onde comprava os livros da escola, de a ver na prateleira de cima, ainda inalcançável, uma «Barbie Crystal» loira platinada e de olhos lilás, (sim, lilás, uma cor de olhos que ninguém tem), num justo vestido branco iridescente com folhos na saia, brincos, colar e anel, estola farfalhuda, sapatos transparentes com purpurina e um cabelo loiro penteado como as estrelas de cinema dos anos 50, daquelas que cantam com olhar lânguido e jeito dengoso e que têm por fundo um pianista que toca um negro piano de cauda.

Lembro-me de esperar ansiosamente naquele Natal, pelo do momento em que sabia se ia ter ou não a minha nova boneca, de a ter recebido com enorme alegria, do cheiro a borracha nova, de a ter despido e ver todos os pormenores do seu corpo, o rosto e olhos pintados, o pescoço, o peito, a cintura fina, o sexo ligeiramente marcado, as pernas flexíveis e os pés com buraquinhos na sola.
E depois fomos a casa de uma prima e perdi-lhe um sapato pelo caminho. Despia-a, vestia-a, dei-lhe banho no alguidar, no tanque, no bidé e todos esses lugares eram para mim casas luxuosas e grandes. O vestido ficou velho e desfez-se, os lenços de assoar ou balões cortados eram vestidos de noite, e até os pensos higiénicos Reglex (e se naquele tempo eram grossos) que roubava à minha mãe eram confortáveis camas de palácio.

O que eu gostava na Barbie era o que todos os que não gostam dela criticam: o que a Barbie representava, o estilo de vida, a beleza, as possibilidades de ter muitas vidas, da independência de ir a muitos lugares e de fazer muitas coisas e ser muita gente. O que gostava na Barbie era dos sonhos e fantasias nos quais me projectava, e isso eu não conseguia partilhar com mais ninguém.
Mas também não fez de mim alguém assim tão distante da realidade.

Escovei-lhe o cabelo até ficar quase careca. Arrumei-a por cima do roupeiro quando cresci e deixei de brincar com ela.
Um dia, usei-a num trabalho que fiz para a escola, no 10.º ano. Deixei-a ficar na arrecadação da sala de aula e, quando a fui buscar, vi que lhe tinham arrancado a cabeça e deixaram o corpo. Senti-me traída pelos meus amigos, zangada e revoltada com a maldade, e foi por vergonha que não chorei.

Reagi como se reage sempre que perdemos alguma coisa que temos garantido até que abandona completamente as nossas vidas: um vazio cheio de boas recordações.

3 comentários:

AME disse...

E eu a pensar que tinha tido uma ideia genial. Pensos higiénicos Reglex como colchão. :P
Ainda levei umas palmadas por andar a cortar os panos coloridos da loiça para fazer a cama à barbie. A ela e ao Ken. Foram bem felizes naquela caminha de casal.
:-P

Eugenia disse...

Que pena que tenhas ficado sem a tua Barbie. Eu não sei onde está a minha, mas tenho quase a certeza que está numa das várias caixas com brinquedos que estão na garagem.
Na altura em que brincávamos com as Barbies, a minha mãe mandava fazer a minha roupa quase toda na costureira. Quando ia buscar a roupa, trazia os restos dos tecidos "porque podia ser preciso algum arranjo" e nunca serviam para nada. Eu comecei a fazer vestidos para as bonecas com esses restos de tecidos, especialmente para a Barbie mas a Nancy também ainda teve alguns. Lembro-me de uma vez ter feito à boneca uma saia toda às pregas, igual a uma saia minha que eu gostava muito. Pensando bem, talvez tivesse futuro como costureira...
Posso só falar daqueles dias das 10 às 10? Pronto, já falei! Era brincadeira das 10 da manhã às 10 da noite, fantástico!!!
E os sacos enormes, cheios de bonecas, roupas e acessórios que carregávamos para casa uma da outra. E no fim do dia sabiamos perfeitamente o que era meu e o que era teu. Nunca tivémos uma briga por causa disso, pois não?
Também me lembro das brincadeiras com os gatos, mas isso dava para outro blog inteiro...
Vou parar por aqui, que isto já vai muito extenso :-)
Fica bem!

BatRitinha disse...

Claro que me lembro, amiga! Sempre tiveste habilidade para a costura, lembro-me de uma saia em salmão, era essa? Se uma tinha a Barbie, a outra tinha a Barbie para podermos brincar juntas, o mesmo aconteceu com o Ken e a Skipper... só não aconteceu o mesmo com o Principe (o cão da Barbie) porque já devem ter achado um exagero! E as Tuchas eram as amigas da Barbie, e quando nos passávamos e queríamos a bonecada toda junta, a Nancy, que era a maior, era a mãe delas todas... foi muito bom!