segunda-feira, 23 de março de 2009

O conforto da rotina


No outro dia, no caminho para o emprego entre a porta do carro e a porta do edifício, pus-me a pensar acerca da rotina, porque não me apercebi de como a semana tinha passado tão depressa.
Sinto algo ambíguo em relação à rotina, se por um lado é confortável por servir como um placebo de segurança, por outro mecaniza-nos de tal forma que nem damos pela vida passar. Quando, por algum motivo, nos apercebemos que passaram anos, muitas vezes nem sabemos muito bem o que fizemos com todo esse tempo. Com certeza que fizemos algo, fizemos coisas, e isso fica assim disperso no ar e no tempo que passou.
Todos os dias passo pelos mesmos sítios, muitas vezes sem me aperceber da quantidade de gente que me acompanha, alheios ao facto de que nos estamos a acompanhar, e nem tampouco iremos saber os nomes dos outros.
Por exemplo, aquela rapariga que costuma passar na ponte às nove menos cinco, de cabelo ruivo curto, com a saia aos retalhos pelos joelhos e casaco de pele, mala ao tiracolo com um grande desenho e sabrinas pretas, tem ar de Catarina. Dependendo do que Catarina quer dizer, para mim é uma rapariga jovial e irreverente, embora todas as Catarina que conheço sejam diferentes de tal figura. Apeteceu-me chamar-lhe Catarina, e só por muita coincidência é que ela se chamará assim.
As pessoas raramente têm a cara do nome que apresentam.
Eu tive uma professora de inglês, alcunhámo-la de Ju-Ju, que passou todo o ano lectivo a chamar-me Teresa. Era uma professora seca e alta, que acentuava a sua altura numas botas castanhas de longo salto grosso e cano subido, cabelo curto e avermelhado com largos caracóis que se confundiam no casaco castanho de pêlo de ovelha, olhando-nos lá do alto, detrás dos seus óculos enormes de massa castanha... «Teresa, would you like to read the text for us about going from Piccadilly Circus to Oxford Street, please?»... só no último dia é que me tratou pelo meu verdadeiro nome. Isto foi no ciclo, como o tempo passou rápido e cheio de pequenas e grandes coisas!

A meio do caminho, quando vou já a pé, reparo mais nas pessoas. Por vezes até sei se vou atrasada, pela parte do percurso onde me cruzo com elas.
Existe uma senhora de idade, loura platinada e habitualmente despenteada, movendo-se com dificuldade num andar tolhido, olhos contornados a negro, com ar de Lurdes, que, se a encontrar antes do semáforo para peões, diz-me, no seu silêncio rotineiro, que já vou ligeiramente atrasada. Se a vejo ao fundo, acelero imediatamente o passo.
Passamos anos e anos, uns pelos outros na rua, sem sequer nos conhecermos.
Quando saía para a hora de almoço, costumava encontrar um velhinho muito curvado, cabelo branco e bigode, que trazia sempre consigo a sua bengala e umas bolinhas de algodão enfiadas no nariz. De certo modo eu achava lógicas as bolinhas, porque o bom do senhor emanava sempre um odor a naftalina. Depois de o deixar de ver durante uns tempos, perguntei a outros por ele, disseram-me que tinha morrido. Nunca conheci o senhor, mas tive pena que tivesse desaparecido. Talvez por acordar por instantes e sair do conforto da rotina, deparando-me com a sua fragilidade, tomei uma decisão: amanhã vou por um caminho novo.

5 comentários:

Ame disse...

Não podia concordar mais contigo. Ora se há alturas que a rotina nos satifaz... tb é nessa satisfação que damos de caras com a insatisfação. Bicho estranho que somos!
No fundo é procurar a felicidade. E perguntarás tu.
- Que bonito, e isso é o quê?
- Oh Ritinha na sei mt bem. Só sei que se é bom é deixar ser bom.

Beijinho e boa semana.
Ps: Gosto de te ler :-)

BatRitinha disse...

Ame, diste-me uma ideia para um post, um dia destes meto o conto da felicidade aqui no blog. É um conto que conto a toda a gente.
Beijinhos!
PS: Gosto de te ter por cá.

O Espírito do Tai Chi disse...

Amiga Rita,

Quanta sensibilidade. Dá gosto vir aqui e ler as tuas "aventuras".
Sabe bem vir aqui a este teu "cantinho"...

António Serra

F3lixP disse...

Eu nem sei que comentar perante tão bonito texto, como aliás todos os outros!
Lembrei-me de uma história que refuto algo que dizes aí pelo meio. Um dia estava sentado com um amigo no festival Sudoeste e como 90% tavamos a rir e a dizer parvoíces, caímos nesta coisa de certas pessoas terem o nome chapado na cara e eu dei como exemplo uma miúda que se aproximaca (desconhecida claro) e sugeri Joana. Chamei a "Joana", ela parou e veio ter comigo! Eu próprio tive um colapso e quando lhe contei ela não quis querer! Nunca mais me vou esquecer!

BatRitinha disse...

Amigo Serra,
Muito obrigada pelas palavras de incentivo, levei muito tempo a decidir mostrar o que escrevo, talvez por timidez.

F3lixP,
É muito gentil da tua parte, o teu comentário e a tua história! Parece que tens jeito para acertar os nomes com os rostos, é uma coincidência incrível!

Beijinhos!