terça-feira, 31 de março de 2009

Computadores


Através do Google Talk, uma amiga desafiou-me a colocar um post acerca do que pensava dos computadores porque comentei com ela que gostava que executessem exactamente o que estava a pensar. Por estranho que pareça, nunca gostei muito deles. São uma óptima ferramenta, tal como uma batedeira eléctrica ou uma máquina máquina de lavar que nos facilita bastante o trabalho e, neste caso, as comunicações, mas assim que algo corre mal, sinto uma frustração imensa e vontade de o arrastar até à janela e largá-lo. O típico drag and drop.

O meu primeiro contacto com um computador foi muito breve e obscuro, quase como se desse cara a cara com um extra-terrestre. Aliás, na altura fazia-me mais sentido conviver com um alienígena do que com um computador, já que estávamos em plenos anos 80 e o Spielberg fazia sucesso com o ET. Decorreu através do meu primo, que é dois anos mais novo do que eu, e, pelo facto de conseguir manusear aquele aparelho mesmo sem quase saber ler, fazia com que o visse como um sobredotado de inteligência muito superior.
O écran era preto e branco, talvez de um IBM, e gostávamos de jogar um jogo que consistia em calcular e introduzir, à vez, o valor do ângulo certo para atirar uma pixelizada bomba-banana de um pixelizado macaco pendurado num pixelizado prédio para o outro pixelizado macaco pendurado no outro pixelizado prédio. O macaco que caísse primeiro, perdia.

Alguns anos mais tarde uma amiga de infância adquiriu um Spectrum, daqueles que liam através de um leitor de cassetes lento e barulhento. Esperávamos pacientemente que carregasse o jogo, o nosso preferido era uma espécie de golf, os pixéis já eram um pouco mais pequenos e os gráficos mais coloridos. Eu achava que essa minha amiga também era muito inteligente.

Vivi bem sem computadores até muito tarde. Pensava que só os informáticos é que precisavam deles, e para mim o mundo era perfeito com caneta e papel. Até começar a tirar um curso superior que me obrigava a fazer trabalhos inforgráficos. A primeira vez que estive frente-a-frente com um computador à minha inteira disposição senti-me novamente a olhar para um ser de outro planeta. Perante o assombro do professor confrontado com a pergunta, fiquei a saber que o Macintosh quadrado se ligava no interruptor instalado na parte de trás, e assim iniciei a minha aventura pela informática, a espreitar para um monitor quase tão pequeno como um olho-de-boi.

Agora que me habituei, penso que a vida devia ter algumas utilidades como o copy e o paste, para, por exemplo, multiplicar as alegrias, o dinheiro na carteira, ou os cabelos na cabeça de um careca... o undo, para desfazer os erros e deixar tudo como estava antes, o save, para guardar os bons momentos e voltar a eles sempre que quiser, e o quit, para sair de uma situação menos agradável. Penso que seria tudo bem mais fácil se pudéssemos passar os acontecimentos pelo Photoshop, para reparar um farol partido, mudar as cores das paredes, apagar uma ruga ou emagrecer 20 kg.
Era só carregar num botão. Talvez um dia o computador, ou algo que daí degenere, consiga mesmo fazer isso tudo.
Agora, qualquer pessoa tem acesso a um computador, ou até mesmo a vários, e até as gerações anteriores à minha se adaptaram com alguma facilidade.
Afinal, somos todos inteligentes.

domingo, 29 de março de 2009

Final de fim de semana

A tarde começa a perder a sua luz e, como anfitriã da noite, Vénus prepra-se para receber as outras estrelas e iniciar mais um ritual nocturno.
O vento sacode as árvores e as roupas dos estendais, voam folhas e sacos de plástico pelo ar, e os estores tremem como se a casa quisesse ir com ele.
Cá dentro, estou deitada no sofá, os meus pés descalços arrefeceram e enrolo-me no calor doce da manta polar que me ofereceram no Natal passado. A morna televisão passa um daqueles filmes que sabem a pastilhas velhas, mas que eu deixo ficar por estar embebida numa perguiça dormente e pastosa... ouço o choro da criança da vizinha do lado, e quase ao mesmo tempo, inicia-se a discussão dos vizinhos de cima, com uma batida de pé, seguida de passos pesados e rápidos, como uma retirada para a outra sala...
há-de voltar para trás e começar a discussão... um... dois... ora aí está, voltou e inicia-se o chorrilho de palavrões, berros e coisas a bater. Há uns tempos que não haviam discussões deste tipo, estão a ficar cada vez mais espaçadas, o que talvez seja bom.
Procuro o comando da televisão e aumento o som... ora bolas, começaram os anúncios. Faço um pouco de zapping e prendo-me numa série que revive os anos 70. Fico a ver, não foi assim há tanto tempo. Lembro-me da forma de como as pessoas se tratavam, do respeito de filhos para pais, do medo do sr. Polícia, das meninas recatadas, do conselho do sr. Prior, da mercearia, dos rapazes a jogar à bola na rua, de um mundo provinciano e puro... o raio da série está bem feita!
Deixo-me continuar entre o meu mundo e aquele, a marinar no ócio hirto de um final de domingo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Borboletas

No outro dia reparei como gosto de borboletas, quando ao arrumar a minha caixa dos enfeites, vi que grande parte das pregadeiras, peça que uso de vez em quando, representam borboletas. Há quem as ache pirosas, mas eu gosto.
Com pedras, com missangas, esmaltadas, mais ou menos discretas, já tenho algumas.
Há quem ache as borboletas símbolo de tristeza, assim como uma espécie de prenúncio de morte.
Desde os tempos antigos dos egípcios, gregos e romanos, vem a crença de que a alma deixava o corpo em forma de borboleta, que em grego se diz psique, o que significa também espírito.
Talvez lhe tenham conferido esse significado por ser alvo do processo de metamorfose, nascer lagarta, recolher-se num casulo e transformar-se numa crisálida que renasce com as suas asas para viver uma outra vida. Eu acho que é um processo lindo!
Sempre me impressionaram aquelas borboletas dos coleccionadores, presas nos quadros com alfinetes espetados, cadáveres belos que já não voam. Lembram-me a célebre frase «Viver depressa, morrer novo e deixar um corpo bonito». Não me é uma ideia apelativa, pois espero usar durante bastante tempo esta embalagem onde nasci.
A vantagem de nascer no campo é ver a natureza antes de começar a absorver qualquer outro significado vindo de outros mundos.
Quando brincava no quintal da casa dos meus pais, entre os muros caiados a branco luminoso que serviam de fundo às cores garridas das rosas amarelas e de veludo vermelho, os malmequeres, os crisântemos e os brincos-de-princesa que gostava de pendurar nas orelhas, sob o tecto da aveleira que tornava fofo o chão de cimento com os seus pendentes amarelados que iam caindo, recordo-me de receber com alegria e fascínio as borboletas, brancas ou amarelas, no seu voo alegre e irregular de quem aprecia a vida sem tempo a perder.
Para mim são sinal de harmonia, porque aparecem nos dias mais bonitos, de equilíbrio e simetria, com as suas asas em forma de pétalas grandes, de algo delicado e efémero que a natureza resolveu oferecer para deleite dos nossos olhos. Talvez seja por isso que gosto de usar borboletas, por me lembrarem que a vida não é eterna e que não devo espetar alfinetes nas minhas asas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A primavera


É oficial: já chegou a primavera. Sim, pode-se dizer que chegou há mais dias, mas para mim foi hoje. O sol, as andorinhas, as árvores vestidas de um verde tenrinho, os campos coloridos a esponja, o cheiro açucarado no ar... tudo isso já tinha chegado no final do inverno.
O que faltava aparecer para oficializar a chegada da primavera, tal como a visita do presidente da república oficializa a inauguração de um monumento, era a minha rinite alérgica, com os seus inseparáveis lenços de papel molhados. Molhados, não da comoção por ver as flores a brotar ou os coelhinhos a procriar, até porque não há coelhinhos fofinhos a saltitar pela cidade fora, mas por ter as células caliciformes do nariz a produzir quantidades industriais de histamina, uma substância protectora da superfície nasal, vulgarmente designada por muco aquoso, ao que parece com a função de aprisionar os microrganismos aéreos no epitélio respiratório.
Em suma, tenho uma batalha no nariz: cílios nasais versus pólen, por causa do sexo das plantas. É como a história de Tróia, com a Helena como árvore, o cavalo é um grão e eu sou o território a defender pelo rei Príamo. A diferença é que eu tenho anti-histamínicos, coisa que os troianos não tinham, e por isso vou vencer.
Se, por um lado, a primavera significa os preliminares do verão, por outro é a lua cheia que me transforma num monstro com os olhos e nariz vermelhos, inchados e doridos. Uma lua cheia que dura até lá para o verão, quando o calor queima os pólenes e torna estaladiças as flores e as árvores.
A primavera é o estado de graça da natureza que eu celebro com a minha humanidade.
Quando me arde o nariz, para mim o centro do mundo é ali e em mais nenhum lugar, o egoísmo que diz que agora não, não me falem da fome, da guerra, da crise, da subida dos preços, do desemprego, da precariedade social, da precariedade moral, da desigualdade, da educação, da saúde, da solidão, dos idosos, dos desabrigados, dos doentes, dos desprotegidos... não me falem em nada disso porque a mim só interessa não sentir que estão a fazer vudu na ponta do meu nariz.
E digo, a bem da verdade, que o que não falta no mundo é gente que não vê mais para além da ponta do seu nariz.

terça-feira, 24 de março de 2009

7 coisas que me fazem sorrir!


Fui contemplada com mais um desafio, pelo Arséne Lupin, desta vez o de nomear 7 coisas que me fazem sorrir, o que para mim é difícil, pois entre o esboço do sorriso e o esgar da gargalhada, muitas vezes a distância esbate-se. Assim, em jeito de meia batota, cá vão as coisas que me fazem sorrir:

  1. Estar com as pessoas de quem gosto, é aqui que faço batota porque envolve a família e os amigos, miúdos e graúdos... é tão bom!
  2. Fazer as malas para ir de férias ou de fim-de-semana, e ir...
  3. Finais de tarde amenas numa esplanada, na praia ou no relvado à sombra das árvores... ou à noite ir ao sushi!
  4. Sentir-me com um pouco menos de peso. Dependendo da quantidade, eu sorrio, rio, ou entro em histeria;
  5. Brincar com um gato... ou cão, é rejuvenescedor;
  6. Fazer um trabalho bem feito, do qual goste;
  7. Ver, ler ou ouvir uma boa comédia.
Hummm... este post fez-me recordar como estas coisas são boas e acabei a sorrir!
Agora teria de passar a 7 bloggers, mas vou continuar a fazer batota e desafiar, quem quiser, a sorrir um pouco.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O conforto da rotina


No outro dia, no caminho para o emprego entre a porta do carro e a porta do edifício, pus-me a pensar acerca da rotina, porque não me apercebi de como a semana tinha passado tão depressa.
Sinto algo ambíguo em relação à rotina, se por um lado é confortável por servir como um placebo de segurança, por outro mecaniza-nos de tal forma que nem damos pela vida passar. Quando, por algum motivo, nos apercebemos que passaram anos, muitas vezes nem sabemos muito bem o que fizemos com todo esse tempo. Com certeza que fizemos algo, fizemos coisas, e isso fica assim disperso no ar e no tempo que passou.
Todos os dias passo pelos mesmos sítios, muitas vezes sem me aperceber da quantidade de gente que me acompanha, alheios ao facto de que nos estamos a acompanhar, e nem tampouco iremos saber os nomes dos outros.
Por exemplo, aquela rapariga que costuma passar na ponte às nove menos cinco, de cabelo ruivo curto, com a saia aos retalhos pelos joelhos e casaco de pele, mala ao tiracolo com um grande desenho e sabrinas pretas, tem ar de Catarina. Dependendo do que Catarina quer dizer, para mim é uma rapariga jovial e irreverente, embora todas as Catarina que conheço sejam diferentes de tal figura. Apeteceu-me chamar-lhe Catarina, e só por muita coincidência é que ela se chamará assim.
As pessoas raramente têm a cara do nome que apresentam.
Eu tive uma professora de inglês, alcunhámo-la de Ju-Ju, que passou todo o ano lectivo a chamar-me Teresa. Era uma professora seca e alta, que acentuava a sua altura numas botas castanhas de longo salto grosso e cano subido, cabelo curto e avermelhado com largos caracóis que se confundiam no casaco castanho de pêlo de ovelha, olhando-nos lá do alto, detrás dos seus óculos enormes de massa castanha... «Teresa, would you like to read the text for us about going from Piccadilly Circus to Oxford Street, please?»... só no último dia é que me tratou pelo meu verdadeiro nome. Isto foi no ciclo, como o tempo passou rápido e cheio de pequenas e grandes coisas!

A meio do caminho, quando vou já a pé, reparo mais nas pessoas. Por vezes até sei se vou atrasada, pela parte do percurso onde me cruzo com elas.
Existe uma senhora de idade, loura platinada e habitualmente despenteada, movendo-se com dificuldade num andar tolhido, olhos contornados a negro, com ar de Lurdes, que, se a encontrar antes do semáforo para peões, diz-me, no seu silêncio rotineiro, que já vou ligeiramente atrasada. Se a vejo ao fundo, acelero imediatamente o passo.
Passamos anos e anos, uns pelos outros na rua, sem sequer nos conhecermos.
Quando saía para a hora de almoço, costumava encontrar um velhinho muito curvado, cabelo branco e bigode, que trazia sempre consigo a sua bengala e umas bolinhas de algodão enfiadas no nariz. De certo modo eu achava lógicas as bolinhas, porque o bom do senhor emanava sempre um odor a naftalina. Depois de o deixar de ver durante uns tempos, perguntei a outros por ele, disseram-me que tinha morrido. Nunca conheci o senhor, mas tive pena que tivesse desaparecido. Talvez por acordar por instantes e sair do conforto da rotina, deparando-me com a sua fragilidade, tomei uma decisão: amanhã vou por um caminho novo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Desafio


Fui desafiada pela AME para abrir um livro na página 161e transcrever para aqui a 5.ª frase inteira que lá encontrasse. O livro eleito foi um presente de um amigo e é da autoria de Isabel Abecassis Empis, Eu Quero Amar, Amar Perdidamente:
«Nestes e noutros casos, este aspecto pervertido da nossa mente serve os
ses do passado e os medos do futuro, tirando à pessoa a capacidade de realizar a sua plena vitalidade, o exercício da sua humanidade aqui e agora - único espaço em que a vida, de facto, se passa.»
Agora passo o desafio a 5 bloggers:

Deus e o Homem


A primeira imagem que tenho de Deus é a de um velho, velho de velho, cabelos e barbas compridas tão brancos como a túnica que veste, mais ou menos como o Panoramix, o druida do Astérix, mas sem a capa vermelha.
Um observador paciente e atento, mas enorme, para estar em todo o lado a espreitar das nuvens como se se debruçasse à janela. Nunca me perguntei onde estava quando não havia nuvens, porque se estava em todo lado, e via tudo o que fazia mesmo que estivesse dentro de casa, as nuvens não haviam de importar.
Diziam-me «os meninos que se portam mal não vão para o céu» ou, dependendo da altura do ano, «o menino Jesus não põe prendas no sapatinho de quem não come a sopa». Eu detestava sopa, não achava sentido nenhum comer um líquido à colher.

Depois comecei a ir à escola e à catequese, e tentei compreender Deus e as coisas que me liam da Bíblia.
Lembro-me dos desenhos coloridos e dos livros de Religião & Moral, onde Cristo aparecia sempre muito bonito e sereno, e de ter pena de o ver pendurado na cruz. É uma história cruel para uma criança.

Havia tantas coisas na Bíblia que eu não compreendia, primeiro tinha de me habituar aos textos em português antigo na 2.ª pessoa do plural, e depois tentar compreender que povos e sítios desconhecidos eram esses para, no final, o que estava escrito significar outras coisas diferentes.

Acho que há coisas que só a vida e o tempo nos ensinam, como uma tela branca que se vai pintando e tornando cada vez mais complexa até perder toda a sua alvura sob as camadas e camadas de tinta.

Enquanto crescia comecei a ter filosofia e história de arte e vi aquele Deus, velho de velho, metamorfosear-se em muitos deuses diferentes, consoante os desejos e políticas do homem, apoiado naquele ciclo do mito e do rito.

Achava graça às representações primitivas e toscas de animais em pedra, e depois a Rá, o Deus-Sol, e ao pretensiosismo à divindade dos faraós. Também achava interessantes os deuses gregos e romanos por terem defeitos tão humanos e virtudes tão fantásticas, cada um com os seus poderes e fraquezas, como os super-heróis de uma banda desenhada.
Compreendi a vantagem de existir um só Deus para a unificação de um povo, mas também percebi que por causa dos deuses o povo se divide. Percebi também que o Buda careca, obeso e sorridente em loiça branca com retoques vermelhos e dourados que a minha mãe tinha sobre um napperon de renda na mesinha de cabeceira significava mais do que uma recordação de viagem.

O conceito de divindade anda sempre de mãos dadas com o conceito de vida para além da vida, céu, inferno e purgatório, reencarnação... gosto particularmente da reencarnação, dizem que reencarnamos em formas de vida mais puras do que as anteriores consoante a aprendizagem com os nossos erros nas vidas passadas. Eu gostava de voltar cá daqui a 500 anos, mas penso que talvez venha na forma de uma barata. Não que as baratas sejam muito puras, mas por serem os únicos habitantes da terra, se não nos preocuparmos com a ecologia e o equilíbrio ambiental.

Anos e anos de reverência ou contestação divina fazem com que Deus exista, seja qual for o nome, nem que seja pelo conceito de divindade. Por isso cheguei à conclusão de que estas coisas da religião não se entendem, mesmo o mais céptico cede à Sua existência nas horas más na esperança de ter a poção mágica. Os santos? São os que, em pequeninos, caíram no caldeirão.

Não sei se é ou não uma criação do homem, se se chama Deus às forças físicas e químicas que se combinam e repelem, ao equilíbrio e à energia que compõe tudo o que existe, ou a uma força interior do homem que acredita mesmo quando não há mais nada para acreditar.
Eu cá acho que é reconfortante pensar que existe algo maior do que nós, que nos torna humildes e iguais, em harmonia.
Algo que nos fez à sua imagem e semelhança.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Generation Gap


Ultimamente o tempo tem estado ameno e os primeiros indícios de primavera começam a surgir. Já vi andorinhas a voar sob os campos verdes e amarelos das azedas, em contraste com o céu azul e riscado por um ou outro avião. Ainda hei-de saber porque é que os aviões deixam o céu com efémeras cicatrizes brancas.
Os dias amenos trazem também as noites amenas, o céu claro torna-se negro, parece um manto de veludo cravejado de pequenos e brilhantes diamantes, e a lua confunde-se com um candeeiro de rua redondo e luminoso.
Perdida na contemplação poética do mundo e do universo, no tempo, no que era antes do tempo e no que poderá ser depois do tempo, em toda esta maravilha fascinante que é a vida, e a tal história da dialéctica pé – mão – cérebro, da maravilhosa obra de engenharia que é o corpo humano, geração após geração de inovações tecnológicas que se vão adaptando às necessidades da evolução da espécie e do universo, centro-me em mim e penso como sou darwinista, e como sou mais um ser que se move sob a abóbada de constelações que nos envolve desde a Criação.
- Que bela noite! – comenta a minha mãe, inspirando o aroma doce dos tufos de viburno ou, como ela chama, carameleira.

- Até parece uma noite desenhada a computador! - responde a minha sobrinha.
Acordo, ciente da outra realidade com que me deparo.
Que tempos tão diferentes dos meus, que foram diferentes dos meus pais e que foram diferentes dos meus avós... e sinto-me tão velha quanto a lua... porque razão, na cabeça de uma pré-adolescente, o conceito de noite magnífica é este? Uma geração que não estranhou este aparelho, como eu estranhei, mas que já o trouxe nas entranhas, instalado nos genes, uma geração cujos dedos nasceram para as teclas do teclado. Para eles, a perfeição e a ordem vem da dialética homem-computador-tecnologia, e nessa dialética o real pode ser sempre aperfeiçoado, organizado e conquistar o belo, como pequenos deuses.
É uma geração que pensa diferente, mas que vai continuar a ser aperfeiçoada, uns vão construir coisas boas e outros vão fazer coisas más, mas irá continuar o nosso caminho, e daqui a milhares de anos seremos apenas um rasto da nossa passagem, como o rasgo branco do avião.

- Sim -digo eu-, parece realmente uma noite desenhada a computador.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os homens não são só garganta!

Disseram-me, a meio de uma conversa, que os homens são só garganta.
Não são só garganta, acho que isso é muito redutor!
Também têm outros órgãos à volta igualmente importantes.
Imagino um bando de gargantas na assembleia da república com as suas gravatinhas à volta...
Mau exemplo, vou dar outro: imagino um estádio de futebol cheio de gargantas a berrar desalmadamente para insultar o árbitro, mas sem conseguir articular palavra porque não têm boca, sem cachecol porque não têm mãos para o colocar, mas mesmo que tivessem cachecóis, escorregavam por aí abaixo sem ombros que os segurassem, gargantas que pagaram o bilhete sei lá como, mas que não podem ver nem ouvir o jogo, porque não têm olhos nem ouvidos.

A garganta nem tem direito a ter um médico especialista apenas em garganta, é sempre especialista em garganta, nariz e ouvidos. Quando o médico escolhe o curso que quer tirar, quer ser Oftalmologista - especialista em olhos, Estomatologista - especialista em boca, ou Otorrinolaringologista, que, apesar de parecer uma palavra alemã para um animal em extinção, é um pack económico de 3 órgãos, como as promoções do Continente.

De qualquer modo, a garganta não é somenos importante, tem um filme e tudo. O «Garganta Funda».
Nunca o vi, não sei se é um documentário ou de acção, mas disseram-me que era profundo. Talvez seja até educativo. Há muitos filmes educativos por aí. No outro dia passei pelo Media Markt e vi que estavam lá uma série deles, como o «Estudantes e Ninfomaníacas», suponho que sejam alunas de história a falar das ninfas na mitologia grega. Ainda estive tentada em comprá-lo porque gosto muito de mitologia grega, mas dissera-me que há desses filmes na net. Na net pode-se encontrar muito material educativo, não é só poucas-vergonhas.

Que fique bem claro que o homem não é só garganta. Tem de ter o resto do corpo para segurar o cachecol, o chapéu de adepto cheio de bicos e guizos, a cerveja, a bifana, a bandeira, o rádio, o cigarro... se me disserem que o homem é um polvo, mole e indolente que se arrasta até ao sofá com tentáculos para segurar os amendoins, a cerveja e uma dúzia de comandos ao mesmo tempo enquanto faz zapping na tv, já me convenciam melhor.

terça-feira, 10 de março de 2009

Os espelhos de nós

Este fim-de-semana estive em mais um jantar de turma da escola primária.

Embora viva actualmente em Lisboa, eu sou da terra e gosto de contactar com o pessoal da minha terra. A gente que me viu crescer, que sabe quem sou e de onde venho, que partilha as mesmas origens e fala a mesma linguagem, os que me dizem adeus na rua.
Lá sinto-me naturalmente protegida por estar em casa, por conhecer todas as ruas, embora já me falhem alguns rostos, as indicações são dadas pelos nomes das casas das pessoas e não pelos nomes das ruas e avenidas, até porque não há avenidas.
Mas a mudança, o progresso, bom ou mau, também ocorre por lá, como no resto do país.

Aqui, na capital, uma cidade cosmopolita, o anonimato é o meu escudo e a minha fraqueza, sou mais uma na massa dos habitantes da Grande Lisboa. Sou mais uma pessoa que não é de cá.

Conheço muito pouca gente cuja família seja mesmo de Lisboa há pelo menos, duas gerações. Parece-me que ser de Lisboa é ser de mais lado nenhum. Para onde é que vão as pessoas de Lisboa no Natal e na Páscoa, quando são mesmo de Lisboa? Ficam cá, sem terra para ir, gente que os reconheça, sem o calor de uma palmada nas costas, dada por alguém de ar patusco, por ser bem-vindo de volta à terra. Sem horas e horas de filas de trânsito para voltar à capital, com a bexiga tão cheia de urina como o porta-bagagens de couves, abóboras e laranjas.

Estava eu a dizer que fui à terra jantar com a malta que andou comigo na escola primária.
Foi mais um jantar com caras conhecidas, sem novidades excepcionais, apenas com a pele mais curtida pelo tempo, mais velhos desde a última vez que nos vimos.

De facto, de toda a minha vida académica, é o grupo mais fácil de juntar porque os contactos vão-se mantendo mais ou menos os mesmos através de nós ou dos nossos pais. Mas é também o grupo onde somos mais distantes, apenas partilhamos as nossas raízes, e isso já aconteceu há muito tempo. O que é normal, na escola primária resumíamo-nos a um grupo homogéneo de crianças que vão aprender a ler e escrever, sem aspirações ainda bem definidas, tão vazias quanto os nossos cadernos no início do ano.

Hoje, há os que saíram da turma para irem com os pais para outras terras, há os que ficaram na terra, os que foram estudar para fora e voltam de vez em quando, e os que foram tentar a sorte noutro país. Há também casais que se formaram no grupo, eu acho-lhes graça por se conhecerem quase desde sempre.

No fundo, conhecemo-nos todos bem e mal. É uma sensação de conforto e desconforto, formam-se grupos, verificam-se os rótulos para ver a composição de cada um. É quase como se abrisse uma gaveta para onde vamos metendo os mais variados objectos indiscriminadamente, sem nunca olhar lá para dentro, e depois vemos que temos um mundo de coisas diferentes que, em comum, só têm o de caber no mesmo compartimento.

Se não ficamos perto de alguém que conhecemos um pouco melhor, há o risco de haver um silêncio desconfortável, aquele silêncio em que não há mesmo nada para dizer, tão mudo que chega a ser ridículo, e se o quebramos é, de certeza, para dizer alguma idiotice.

Perguntamos pelos ausentes, o que se sabe deles, mas há sempre um limite quando as perguntas se fazem aos presentes. Ou porque de uns já se sabe a história, ou porque de outros já se sabe que não querem falar do assunto. Também há os exageradamente faladores e arrependemo-nos de morte de ter perguntado simplesmente «Então, tudo bem?».

Há de tudo, inclusivé a tendência de procurar os traços de infância, recordar pequenas histórias que são sempre lembradas, tal como a de uma colega que ganhou o título de ser a mais destemida da turma depois de, durante uma briga com o rapaz mais violento - e franzino, quando lhe chegava a mostarda ao nariz amarinhava por cima de fosse quem fosse com murros e pontapés-, lhe ter ferrado o dente no rabiosque; ou de quando simulámos um casamento durante o intervalo, em que participou a turma toda, cada qual com o seu papel; ou ainda locais como a laranjeira onde nos pendurávamos para dar cambalhotas -acho que ainda lá está, forte e baixa, suportando as gerações e gerações das crianças da terra que nela se continuam a pendurar-, as escadas do refeitório que eram a nossa nave-mãe espacial, de onde partíamos fingindo ser naves para explorar o espaço com os braços abertos a correr à volta da escola; ou dos primeiros amores, com os inocentes bilhetinhos que trocávamos a dizer «Queres namorar comigo? Sim? Não?», desenhando um quadrado ao lado de cada resposta para ser assinalado com uma cruz e o bilhete devolvido.

No fundo, acho que estes encontros servem também para pensarmos, com os outros, acerca de nós, para recordarmos quem éramos na nossa infância e reflectirmos acerca do que nos tornámos. Foram, no geral, bons tempos. Digo no geral, porque há sempre alguém para quem a infância foi... complexa. Para mim, foi simplesmente, feliz.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Parabéns, amiga!

Não posso deixar de comemorar os 50 anos da figura feminina que se manteve sempre jovem e glamourosa, que se renovou constantemente, que sempre fez tudo o que quis, radical, terna, multifacetada, alvo de polémica e estudos científicos, que me ensinou a desenhar e que foi a minha companheira inseparável de infância. A Barbie, claro.

Lembro-me da primeira e única Barbie que tive durante toda a minha infância, de andar a namorar a boneca, que era cara como agora não é, durante os 6 meses do meu aniversário ao Natal, de ir com a minha mãe à loja de brinquedos, que também era a papelaria onde comprava os livros da escola, de a ver na prateleira de cima, ainda inalcançável, uma «Barbie Crystal» loira platinada e de olhos lilás, (sim, lilás, uma cor de olhos que ninguém tem), num justo vestido branco iridescente com folhos na saia, brincos, colar e anel, estola farfalhuda, sapatos transparentes com purpurina e um cabelo loiro penteado como as estrelas de cinema dos anos 50, daquelas que cantam com olhar lânguido e jeito dengoso e que têm por fundo um pianista que toca um negro piano de cauda.

Lembro-me de esperar ansiosamente naquele Natal, pelo do momento em que sabia se ia ter ou não a minha nova boneca, de a ter recebido com enorme alegria, do cheiro a borracha nova, de a ter despido e ver todos os pormenores do seu corpo, o rosto e olhos pintados, o pescoço, o peito, a cintura fina, o sexo ligeiramente marcado, as pernas flexíveis e os pés com buraquinhos na sola.
E depois fomos a casa de uma prima e perdi-lhe um sapato pelo caminho. Despia-a, vestia-a, dei-lhe banho no alguidar, no tanque, no bidé e todos esses lugares eram para mim casas luxuosas e grandes. O vestido ficou velho e desfez-se, os lenços de assoar ou balões cortados eram vestidos de noite, e até os pensos higiénicos Reglex (e se naquele tempo eram grossos) que roubava à minha mãe eram confortáveis camas de palácio.

O que eu gostava na Barbie era o que todos os que não gostam dela criticam: o que a Barbie representava, o estilo de vida, a beleza, as possibilidades de ter muitas vidas, da independência de ir a muitos lugares e de fazer muitas coisas e ser muita gente. O que gostava na Barbie era dos sonhos e fantasias nos quais me projectava, e isso eu não conseguia partilhar com mais ninguém.
Mas também não fez de mim alguém assim tão distante da realidade.

Escovei-lhe o cabelo até ficar quase careca. Arrumei-a por cima do roupeiro quando cresci e deixei de brincar com ela.
Um dia, usei-a num trabalho que fiz para a escola, no 10.º ano. Deixei-a ficar na arrecadação da sala de aula e, quando a fui buscar, vi que lhe tinham arrancado a cabeça e deixaram o corpo. Senti-me traída pelos meus amigos, zangada e revoltada com a maldade, e foi por vergonha que não chorei.

Reagi como se reage sempre que perdemos alguma coisa que temos garantido até que abandona completamente as nossas vidas: um vazio cheio de boas recordações.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Amigos com cauda

Em homenagem aos meus amigos de sempre, os cães Tim-Tim, Tino, Nita, Gorducha Joaquina (Duxa) e Teddy, aos gatos Piolhinho, Gata, Perna-Longa-Pé-de-Salsa, Fofinho, Babeco, Dom Ruca, e a outras dezenas que passaram pelo meu quintal - um dia explico-, e aos que hei-de ter um dia: Garamond e Italic.

Citando o Bruno Nogueira, um dia mando pôr cauda para toda a gente ficar a saber que estou contente sem precisar de sorrir.

Brincadeiras de infância

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Isto lembra-me o tempo em que gostava de juntar gatos e fita-cola industrial... nenhuma experiência é novidade para mim.