quarta-feira, 25 de março de 2009

A primavera


É oficial: já chegou a primavera. Sim, pode-se dizer que chegou há mais dias, mas para mim foi hoje. O sol, as andorinhas, as árvores vestidas de um verde tenrinho, os campos coloridos a esponja, o cheiro açucarado no ar... tudo isso já tinha chegado no final do inverno.
O que faltava aparecer para oficializar a chegada da primavera, tal como a visita do presidente da república oficializa a inauguração de um monumento, era a minha rinite alérgica, com os seus inseparáveis lenços de papel molhados. Molhados, não da comoção por ver as flores a brotar ou os coelhinhos a procriar, até porque não há coelhinhos fofinhos a saltitar pela cidade fora, mas por ter as células caliciformes do nariz a produzir quantidades industriais de histamina, uma substância protectora da superfície nasal, vulgarmente designada por muco aquoso, ao que parece com a função de aprisionar os microrganismos aéreos no epitélio respiratório.
Em suma, tenho uma batalha no nariz: cílios nasais versus pólen, por causa do sexo das plantas. É como a história de Tróia, com a Helena como árvore, o cavalo é um grão e eu sou o território a defender pelo rei Príamo. A diferença é que eu tenho anti-histamínicos, coisa que os troianos não tinham, e por isso vou vencer.
Se, por um lado, a primavera significa os preliminares do verão, por outro é a lua cheia que me transforma num monstro com os olhos e nariz vermelhos, inchados e doridos. Uma lua cheia que dura até lá para o verão, quando o calor queima os pólenes e torna estaladiças as flores e as árvores.
A primavera é o estado de graça da natureza que eu celebro com a minha humanidade.
Quando me arde o nariz, para mim o centro do mundo é ali e em mais nenhum lugar, o egoísmo que diz que agora não, não me falem da fome, da guerra, da crise, da subida dos preços, do desemprego, da precariedade social, da precariedade moral, da desigualdade, da educação, da saúde, da solidão, dos idosos, dos desabrigados, dos doentes, dos desprotegidos... não me falem em nada disso porque a mim só interessa não sentir que estão a fazer vudu na ponta do meu nariz.
E digo, a bem da verdade, que o que não falta no mundo é gente que não vê mais para além da ponta do seu nariz.

3 comentários:

Arsène Lupin disse...

Dhu dhão exixtes.

Ame disse...

Ora ai está uma maneira diferente de enfrentar a Primavera.
:-P

O Espírito do Tai Chi disse...

Cara amiga,

Essa da "Batalha de Troia" está divinal...
De qualquer forma viva a Primavera.

Beijinhos,

António Serra