quarta-feira, 18 de março de 2009

Deus e o Homem


A primeira imagem que tenho de Deus é a de um velho, velho de velho, cabelos e barbas compridas tão brancos como a túnica que veste, mais ou menos como o Panoramix, o druida do Astérix, mas sem a capa vermelha.
Um observador paciente e atento, mas enorme, para estar em todo o lado a espreitar das nuvens como se se debruçasse à janela. Nunca me perguntei onde estava quando não havia nuvens, porque se estava em todo lado, e via tudo o que fazia mesmo que estivesse dentro de casa, as nuvens não haviam de importar.
Diziam-me «os meninos que se portam mal não vão para o céu» ou, dependendo da altura do ano, «o menino Jesus não põe prendas no sapatinho de quem não come a sopa». Eu detestava sopa, não achava sentido nenhum comer um líquido à colher.

Depois comecei a ir à escola e à catequese, e tentei compreender Deus e as coisas que me liam da Bíblia.
Lembro-me dos desenhos coloridos e dos livros de Religião & Moral, onde Cristo aparecia sempre muito bonito e sereno, e de ter pena de o ver pendurado na cruz. É uma história cruel para uma criança.

Havia tantas coisas na Bíblia que eu não compreendia, primeiro tinha de me habituar aos textos em português antigo na 2.ª pessoa do plural, e depois tentar compreender que povos e sítios desconhecidos eram esses para, no final, o que estava escrito significar outras coisas diferentes.

Acho que há coisas que só a vida e o tempo nos ensinam, como uma tela branca que se vai pintando e tornando cada vez mais complexa até perder toda a sua alvura sob as camadas e camadas de tinta.

Enquanto crescia comecei a ter filosofia e história de arte e vi aquele Deus, velho de velho, metamorfosear-se em muitos deuses diferentes, consoante os desejos e políticas do homem, apoiado naquele ciclo do mito e do rito.

Achava graça às representações primitivas e toscas de animais em pedra, e depois a Rá, o Deus-Sol, e ao pretensiosismo à divindade dos faraós. Também achava interessantes os deuses gregos e romanos por terem defeitos tão humanos e virtudes tão fantásticas, cada um com os seus poderes e fraquezas, como os super-heróis de uma banda desenhada.
Compreendi a vantagem de existir um só Deus para a unificação de um povo, mas também percebi que por causa dos deuses o povo se divide. Percebi também que o Buda careca, obeso e sorridente em loiça branca com retoques vermelhos e dourados que a minha mãe tinha sobre um napperon de renda na mesinha de cabeceira significava mais do que uma recordação de viagem.

O conceito de divindade anda sempre de mãos dadas com o conceito de vida para além da vida, céu, inferno e purgatório, reencarnação... gosto particularmente da reencarnação, dizem que reencarnamos em formas de vida mais puras do que as anteriores consoante a aprendizagem com os nossos erros nas vidas passadas. Eu gostava de voltar cá daqui a 500 anos, mas penso que talvez venha na forma de uma barata. Não que as baratas sejam muito puras, mas por serem os únicos habitantes da terra, se não nos preocuparmos com a ecologia e o equilíbrio ambiental.

Anos e anos de reverência ou contestação divina fazem com que Deus exista, seja qual for o nome, nem que seja pelo conceito de divindade. Por isso cheguei à conclusão de que estas coisas da religião não se entendem, mesmo o mais céptico cede à Sua existência nas horas más na esperança de ter a poção mágica. Os santos? São os que, em pequeninos, caíram no caldeirão.

Não sei se é ou não uma criação do homem, se se chama Deus às forças físicas e químicas que se combinam e repelem, ao equilíbrio e à energia que compõe tudo o que existe, ou a uma força interior do homem que acredita mesmo quando não há mais nada para acreditar.
Eu cá acho que é reconfortante pensar que existe algo maior do que nós, que nos torna humildes e iguais, em harmonia.
Algo que nos fez à sua imagem e semelhança.

5 comentários:

F3lixP disse...

Durante a minha educação fiquei agnóstico, e prontos, não à beleza poética que possa discorrer deste adjectivo, lol!
Gosto da forma como vives o que te rodeia e da forma que o demonstras!
;)

Abraço!

BatRitinha disse...

Olá F3lixP,
Ser agnóstico, tal como ser ateu, céptico, sem religião ou crente, é uma conclusão de um pensamento que questiona a existência ou não de um ou vários deuses, do qual resulta uma filosofia de vida, processo íntimo que foi feito em algum momento da tua vida. Parece-me que reflectir acerca das nossas origens, que são o que são com ou sem deus, é um processo bastante poético porque encontramos também a beleza e harmonia universal que surgiu do caos. O que achas?
;)
Abraço!

Arsène Lupin disse...

Meu Deus, obrigado por me teres feito ateu.

O Espírito do Tai Chi disse...

Amiga BatRitinha,

Independentemente de se ser ateu, agnóstico ou crente ferveroso quem por aqui passar vê... aquilo que és... que sentes e vives...
Parabéns por isso...

António Serra

F3lixP disse...

Sim, visto por esse prisma podes de facto reflectir bastante acerca de quase todas as vivências que te fizeram acreditar no que quer que seja! Pois, agora que penso nisso, ui ui, tive um ideia maluca porque mencionaste o caos! Cá vou eu viajar à terra da criação, lol!
;)