domingo, 5 de abril de 2009

Conflitos com a moda


Houve tempos em que eu me interessava muito por moda. Até quis ser estilista, na minha cabeça via desfiles inteiros a passar ao som de uma música e tentava correr atrás deles desenhando modelos atrás de modelos. Tudo servia de inspiração, desde a areia da praia até à cesta de fruta na mesa da cozinha.

Gostava muito da elegância da Dior e de Montana, do estilo gráfico de Thierry Mugler (o que raio anda a Beyoncé a fazer com o fato que já foi usado no vídeo Too Funky do George Michael?!?) da simplicidade de Jil Sander, ou da irreverência de Jean Paul Gaultier e de Vivienne Westwood.

A pouco e pouco fui ganhando uma vida e afastei-me deste mundo para um mais real onde percebi que não é a moda que não é feita para mim, mas eu é que não sou feita para a moda.
Se fosse, eu teria 1,90m, 50 kg, e via-se mais ossos do que um frango no fim de ser comido por um bando de adolescentes.

Não me deixei de interessar por moda, mas já não me fascina.
É como aquelas amigas que são muito amigas durante uns tempos até vermos que não temos mais assunto para conversar. Quando nos encontramos até somos capazes de ir tomar um café juntas, mas vivemos bem sem fazer parte da vida da outra.

O meu interesse desceu, literalmente.

Agora sinto mais interesse por sapatos. Adoro ver um original par de sapatos de salto alto.
Mas não para usar. Sou adepta ferrenha de calçado confortável, e só não uso daqueles chinelos de enfermeira ortopédicos que se vendem nas farmácias por vergonha.
Às vezes faço aquela expressão apavorada à Tim Gunn quando abro a minha modesta sapateira do IKEA e reparo que, apesar de estar tão cheia de sapatos monótonos a implorarem por liberdade, não tenho nada para calçar!

Este ano, melhor, desde há 4 anos atrás, porque isto da moda sofre de um considerável jet lag, a moda dos sapatos está como gosto: racional. Pés redondinhos à frente, bem pequeninos e femininos, com cunha e um pouco de plataforma, mas não demasiada para não se confundirem com cascos, e tacão em V, com suporte.

Finalmente parece que estão a desaparecer aqueles sapatos terríveis de saltos fininhos – stiletto - que se metem entre as pedras da calçada, deixando o sapato para trás, o pé descalço no chão e os transeuntes deliciados com o ridículo.
Esses sapatos normalmente têm um formato alongado por uma biqueira fina que se prolonga como se não houvesse amanhã, ou melhor, como se quisessem chegar a amanhã antes de nós! – o scarpin – ironicamente popularizados por Dior e usados por Marylin Monroe. São mais conhecidos por sapatos de matar baratas nos cantos, embora nunca tenha visto ninguém a dar-lhes esse uso.

O problema é que muito pouca gente tem a elegância da falecida, que por acaso até era pitosga e coxa e ficava muito bem de branco. Nunca se deve confiar numa mulher que tem tantas curvas e contracurvas como a Serra da Arrábida e se veste de branco sem ficar a parecer o boneco da Michelin. Quem é que ia olhar para os pés dela?!?

Porque é que nos queremos iludir pensando que estamos a fazer uma bela figura enfiadas nuns sapatos que terminam numa biqueira que se curva e descola da terra como um avião da pista? Será que queremos dar a ideia de que nascemos com o dedo do meio muito maior do que os outros todos, fazendo simultaneamente aquele gesto obsceno e universal semelhante ao que se faz com a mão quando queremos enviar alguém para aquele sítio?!?

Grande parte das mulheres que usam este tipo de calçado, mas grande parte mesmo, parecem pinguins empoleirados em desesperados pica-paus. Os pés desorientam-se automaticamente e ficam com um pé desmesuradamente grande no ponteiro das 2 horas e o outro pé desmesuradamente grande no ponteiro dos 50 minutos, o andar dez para as duas.

Usei uma vez uns sapatos desses. Estava desesperada por uns sapatos para levar a um casamento porque guardei tudo para a última hora, e as sapatarias pareciam ter-se juntado e conspirado contra mim, ficando inundadas de scarpins. Resignada, acabei por comprar o que me serviu: umas mules pretas com um laço no peito do pé e salto fino, que ficavam escondidas sob umas calças largas, de onde saíam os intermináveis bicos. Senti que calçava uma lancha em cada pé que chegava primeiro do que eu a qualquer lugar.
Acabei por me livrar deles pouco tempo depois. Ainda bem que fiquei com a fotografia que me apanhava da cintura para cima.
Há figuras que não vale a pena recordar.

3 comentários:

O Regresso de Buck Jones disse...

É a moda tem destas "coisas". Eu também usei (na altura usavasse) uns sapatos de tacão alto que rapidamente foram para o canto depois de ter feito dois entorses... quase de seguida. A partir daí... sapatinho rasteiro e confortavel...

Beijinhos,

Buck Jones
António Serra

F3lixP disse...

lol, incrível, ainda onte
m conversei com amigos sobr este tema dos sapatos ridiculos.
Fomos fotografar para o castelo e connosco foi uma amigo de botas desconfortáveis que a fazem parecer uma desengonçada a andar. Não consigo compreender porque ainda as usa depois de tão más experiêcias a que assisti e me não fizeram rir mas ter pena e achar uma grande burrice. Ora, num castelo existe o quê? Pedras, calçadas. Pois, a menina teve que regressar ao carro e esperar que os rapazes de sapatilhas acabassem a visita. Perdeu a vista, a companhia, e uma bela procissão do Senhor dos Passos. Tudo por umas botas que ainda por cima são horríveis!
Agora faço este texto todo para gravatas também!
lol
;)

AME disse...

Há uns pares bem bonitos e elegantes. Belos pézinhos de cinderela.
Eu ainda continuo rendida ao sapatinho baixinho, daqueles que tratam o chão por tu.
Vá, um botinha ou outra aceito, desde que o salto seja aceitável. É que não quero parecer uma girafa a andar.
Beijocas.