quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma espera

Uma espera «forçada» - já que espero apenas porque quero - é a causa porque me dirijo para o centro comercial Campo Pequeno.
É um edifício que sempre me fez lembrar mais os palácios dos contos infantis, na sua forma redonda cor de tijolo rematadas por cúpulas e torreões verdes de estilo neo-árabe, do que uma arena para torturar toiros.
Também é o sítio que geograficamente me está mais à mão, ou melhor, ao pé, já que é por este meio que me desloco, para esperas.
Habitualmente passo por lá em marcha automática, mas hoje tenho tempo para me dar ao luxo de gozar o caminho, e respiro fundo para abrandar.
Saio do passeio de calçada e entro pelo caminho de terra batida que serpenteia entre o jardim. Sinto um movimento do meu lado direito e vejo um pardal que se balouça numa flor invulgar que me lembra uma escova de lavar garrafas, com a haste verde e as cerdas vermelhas. Sinto pena por não ter uma máquina fotográfica pronta a registar a imagem. Devia haver uma tecnologia qualquer que tirasse da nossa mente os ficheiros que registamos para podermos partilhar com os outros.
Detrás de um arbusto sai um canzarrão pardacento e esguio que apressa o passo pachorrento para se desviar de mim. Passa por um banco onde está um casal de namorados que transferem o resto do mundo um para o outro com um beijo.
As esplanadas estão com pouca lotação, duas ou três mesas, uma delas composta por alguns estrangeiros que descansam as máquinas fotográficas e aproveitam o final da tarde para beberricar algumas cervejas.
Indiferente, segue gente que se dirige para os transportes, ou que segue pela rua fora, e outra que é engolida pelas várias entradas do centro comercial.
Apesar de fresca e cheia de vida como uma jovem de 18 anos, deixo a tarde lá fora enquanto empurro a porta de vidro para entrar no centro. Sinto o seu bafo morno de cheiro a loja. Percorro um corredor, e dirijo-me para a zona da restauração como se algum sistema magnético me tivesse atraído, há 6 horas que não como.
Levo o meu tabuleiro para uma mesa discreta, e sento-me a mastigar enquanto olho para os plasmas que vão passando informação. O concerto de Emir Kusturica & No Smoking Orchertra (tive um cd que emprestei para uma festa do pessoal lá da terra e acabou por ser roubado); os títulos do jornal «A Bola» supondo que toda a gente gosta de futebol; os horóscopos com Leão favorável a novas relações, Virgem terá de ter cuidado no trabalho e Balança está sujeita a problemas de saúde... não estamos todos sujeitos ao mesmo?
O meu olhar acaba por cair nas pessoas à minha volta. Sou fascinada por pessoas. Cada um de nós é um laboratório de ciências humanas, um mundinho que encerramos em permanente mutação.
Uma bebé vestida de verde que salta animadamente frente a um grupo que a olha com ternura, lembra-me a minha sobrinha na mesma idade;
um casal, ele e ela de cabelos muito compridos, lá em casa devem ser só cabelos pelo chão, eu aborreço-me tanto de apanhar os meus cabelos, principalmente no Outono, caem como as folhas;
dois amigos que chegam, um de fato com ar imberbe e de superioridade, o outro chama-me a atenção pelo seu ar de desespero, os ombros curvados para a frente e as sobrancelhas arqueadas como se fosse desatar num pranto;
ao casal de guedelhudos juntam-se dois rapazes. Devem ser estudantes do Técnico não sei bem explicar porquê, talvez pelas roupas de marca enxovalhadas e o ar de acabado de acordar. Tiram os cadernos das mochilas e começam a trocar ideias uns com os outros. Estranho, deviam estar de férias;
mais escondida, ou camuflados pelas suas figuras indolentes, está uma cena que me provoca algum desconforto. Uma criança que brinca com um carrinho pela mesa fora, a mãe, com ar bastante mais velho e triste, de braços cruzados olha para o infinito detrás dos óculos grossos montados na sua figura roliça e baixa rematada por um cabelo fino e oleoso, enquanto o marido, enfiado num fato que mais parece um saco fechado por uma gravata, mexe nervosamente no telemóvel e faz chamadas. Desviam o olhar uns dos outros como ímanes que com a mesma carga se repelem, num clima de desassossego, de desalento. Podiam ser completamente estranhos, mas chegaram juntos, ele à frente e a falar ao telemóvel, sentaram-se juntos, e agora vão-se embora juntos, ele à frente a mexer no telemóvel.
O meu telemóvel também chama por mim, alguém lá do outro lado diz-me que não sabe quando é que conseguirá acabar o trabalho que está a fazer. Decido ir para casa, já é tarde, o sol está-se a pôr e eu não me sinto muito segura por sair da estação dos comboios à noite. Ponho a mala ao ombro, e apresso o passo. Dirijo-me, neutra e mecânica para fora do centro e junto-me ao trilho de outras gentes. O caminho é agora como um comprimido que tem de ser tomado com um copo de água que não sabe a nada, e chego a casa inundada nos meus pensamentos insípidos.

Imagem retirada daqui.

4 comentários:

Arsène Lupin disse...

Amor,

A tal "flor invulgar" chama-se Callistemon e é vulgarmente conhecida por limpa-garrafas.
Concordo contigo devíamos ter uma qualquer espécie de porta USB na cabeça (não sei bem onde, talvez na nuca) para descarregar-mos os tais ficheiros...

Beijos e boa Páscoa.

BatRitinha disse...

Meu querido, o próximo post é-te dedicado. Um grande ramo de callistemons! E beijos!

F3lixP disse...

De repente apeteceu-me estar noutro sítio qualquer cheio de gente como esse, mas a ouvir esta música que agora ouço de Sigur Rós! ;)

AME disse...

É tão fácil viajar contigo. É tão fácil ler-te e sentir cada palavra.
É fácil caminhar ao teu lado.
É engraçado o que nos passa pela cabeça quando estamos sozinhos.
:-)
Bjinho