sexta-feira, 17 de abril de 2009

No tempo dos luze-cús

Voltou a chover e a fazer frio.
É giro ver como o que é bom me deixa logo mal habituada, e os primeiros dias de primavera com calor chegaram para esquecer o frio de todo o inverno.
Gosto muito de calor. Se há coisa que eu me lembro, é das noites de verão quando era garota, em casa dos meus pais. Era tão bom!
Os serões eram longos, e após o hino que marcava o fecho da televisão (que foi a preto e branco durante muito tempo) às 22h, passando para a mira técnica, a noite ainda era uma criança. Íamos para o quintal, nas noites quentes, espalhávamos uma manta de trapos pelo chão e os almofadões, e ficávamos por ali.
Como o portão só era fechado quando íamos dormir, as vizinhas que passavam entravam e ficavam à conversa com a minha mãe, as minhas avós e a minha tia. Discutiam animadamente a novela como se da vida familiar se tratasse, e imitavam-se os tiques, maneiras de vestir e penteados das actizes que faziam o papel de boazinhas. As más ou loucas tinham sempre um ar extravagante ou fora de moda, lembro-me por exemplo da Fedora, na novela «Sassaricando» que usou um vestido de noiva preto e outro vermelho, e que com isso chocou toda a gente.
O cheiro a verão e às ervas acabadas de regar era delicioso e fresco, e eu entretinha-me a apanhar «luze-cús», só mais tarde é que soube que se chamavam pirilampos. Eram tantos e tornavam a noite tão mágica! Prendia-os num copo, e a minha mãe, depois de eu me deitar, libertava-os e punha no lugar uma moeda escura de 50 centavos.
O meu pai gostava muito de ouvir cantar os grilos, volta e meia apanhava um e punha-o sobre uma folha de alface numa pequena gaiola quadrada de plástico amarelo, para que cantasse a noite toda.
Deitada no chão, contava as estrelas e afastava as melgas, e em noites mais inspiradas as minhas avós contavam as histórias do tempo delas.
Quem gostava muito de contar histórias era o meu tio-avô, foi através dele que conheci «Os 3 porquinhos», «A Gata Borralheira», «O Capuchinho Vermelho» e «A Bela Adormecida». Mas ele tinha a particularidade de saber «Os Lusíadas» de cor, e remetava sempre as histórias com um poema de Camões, por vezes dos grandes. Na altura não sabia quem era Camões, e porque é que o meu tio gostava de falar num português tão estranho... a pouco e pouco ia-me desviando das atenções dele que, entusiasmado, ficava a declamar sozinho.
Também era muito frequente ficarmos sem electricidade, só tínhamos as luzes modestas e brancas da rua, e ficávamos por ali a conversar e a deitar água no chá à medida que este se bebia até a luz voltar e a água ficar clara.
Naquela altura, os serões eram longos e havia tempo para crescer. Será que hoje ainda há luze-cús?

3 comentários:

O Regresso de Buck Jones disse...

Cara BatRitinha,
Que bom foi relembrar nessas mantas e nesse lugar sem tempo a minha infância onde ficava a olhar para o céu e a contar as estrelas...

Obrigado,

Buck Jones

F3lixP disse...

Sim há aqui na aldeia pelo menos!
Essa foi mais ou menos a minha infância também. Hoje em dia tudo é tão diferente, nesse aspecto a evolução estragou o que de melhor havia, tempo para os filhos e momentos simples de ficar no coração.
Felizmente os meus amigos pensam da mesma forma e de vez em quando lá temos um serão à antiga, na conversa, sossegadamente, e no verão então sabe tão bem!
Belas histórias me contas, belos memórias me trazes!
Abraços grandes!

Gena disse...

Ai as coisas boas que me fizeste lembrar... acho que até já estou mais inspirada hoje!
Ai quantos pirilampos eu apanhei - eu sempre lhes chamei pirilampos - no meu quintal e no da minha madrinha... Isso faz-me lembrar também as outras brincadeiras no quintal: os bolinhos de terra, falar para dentro da sisterna para ouvir o eco, o baloiço que estava na garagem, sei lá...
Porque é que os bons tempos têm que passar tão depressa???