sexta-feira, 24 de abril de 2009

O 25 de Abril, 32 anos depois


25 de Abril... Há tanta coisa para dizer do 25 de Abril. A sério, há mesmo.
Infelizmente só posso falar daquilo que sei. E o que eu sei de verdade é que nasci há 32 anos, depois da revolução dos cravos.

Eu não gosto de política, assumo que é um tema que me aborrece profundamente, porque não acredito na forma como é feita, na sua isenção e no seu propósito de servir o povo. Sinto que o objectivo primário do político é estender a sua toalha na melhor praia que conseguir, e daí começar a construir um condomínio privado.
Acredito que existem políticos bons no meio dos maus, da mesma forma como acredito na excepção que confirma a regra. Não acredito é que existam políticos realmente bons, porque os ideais são... muito fraquinhos.

Toda a vida ouvi os meus pais falarem do antes do 25 de Abril, especialmente quando esta data se aproximava.
O meu pai conta que queria ir à Suécia tratar de negócios e não o deixaram ir porque viajar era uma coisa muito complicada e sujeita às vontades de terceiros. Principalmente terceiros que tinham poder por andarem de braço dado com o regime.

A minha mãe conta-me acerca do medo por ouvir a Rádio Moscovo, num rádio de madeira que furava a opressão em bom som lá do alto da prateleira dos copos e garrafas da taberna do meu avô, e de a minha avó reclamar da loja ao lado, Baixa isso, ai Jesus que ainda te vêm buscar, enquanto os homens, sentados nos bancos de madeira com um copito de vinho assente sobre a toalha de plástico, a mandavam calar para ouvirem melhor.

Contaram-me também acerca das pessoas que falavam contra o regime, que eram levadas pela PIDE, as torturas e humilhações a que eram sujeitas, e depois, se eram libertados, a exclusão social pelos mais próximos como se clamar por liberdade fosse alguma doença contagiosa.

Mesmo assim acho que talvez o que tenha sido o gatilho para a revolta do povo que é brando, foi o cansaço de perder os mais próximos na guerra, uma guerra que até hoje ninguém sabe qual foi o seu verdadeiro significado.

Quase todas as famílias têm alguém que esteve lá fora a lutar pelo país. Eu tenho o meu pai, acho que nunca vou saber até onde o devastaram os traumas de guerra, nem aos que ficaram cá à espera de notícias e que regressasse bem.

Há uns anos atrás levaram-me ao forte de Peniche, visitei as celas onde punham os presos políticos e a solitária que emanava a tortura e a opressão daqueles tempos. Lembro-me do chão ainda manchado. Vi também os desenhos do Álvaro Cunhal, ou Cabeça Branca, como lhe chamavam os meus avós. Vi o plano de fuga, que me pareceu difícil e arriscado. Para alguém arriscar a vida daquela maneira ao fugir do forte é porque a vida dentro do forte não era nenhum prato de arroz doce.
Acho que aquela visita foi o mais próximo que tive antes de Abril de ’74.

Sei que foi um acontecimento marcante, que deu liberdade ao povo e que os que o viveram ainda hoje vibram intensamente por terem participado num momento histórico. Conheço-o, mas por muito que o expliquem não o compreendo da mesma forma que eles, e para mim é um momento tão distante quanto o 5 de Outubro de 1910.
Porque não o vivi.

Por muitos livros que se leiam, por muitos filmes que se vejam, por muitos cravos que nos ofereçam, por muito que ouçamos cantar o Zeca Afonso, ou por muitas manifestações onde vamos, nós, da geração pós 25 de Abril, nunca saberemos valorizar na sua plenitude esta data. Não é que não queiramos, mas não conseguimos.

Apesar disso, sabemos que não queremos viver oprimidos, contraídos, com medo do próximo e submissos à vontade alheia, e por isso é bom lembrar: 25 de Abril, sempre!

4 comentários:

O Regresso de Buck Jones disse...

É isso amiga. Apesar de tudo... 25 de Abril... Sempre!...

Arsène Lupin disse...

Do que me lembro mais da visita ao forte é dos carapaus!
Lembras-te dos carapaus?

Beijos, que a liberdade ainda está a passar por aqui.

BatRitinha disse...

Se me lembro: 6 carapaus para cada um, que barrigada!!! Foi no dia em que o pessoal ficou em pânico no Algarve por causa de uma ilusão de óptica que parecia uma onda gigante! Para nós foi muito boa onda.
Beijos!

F3lixP disse...

E por isso (como quis dizer) os que tentam ou querem fazer querer que sabem como foi, transparecem dúvida e falso moralismo!

Belo texto como sempre!