quarta-feira, 20 de maio de 2009

Evolução

Todos os dias me devia sentar em frente ao computador e escrever um pouco que fosse. Devia ser assim, disciplinada, regular, certinha, atilada.
Mas não sou.
Sento-me ao computador, escrevo só quando me dá na bolha, e muitas vezes nem sei muito bem acerca do quê.
Ainda por cima, num dia de sol tão morninho, eu podia ir lá para fora, onde a vida realmente acontece, mas não, fico aqui a premir as teclas nem sei bem para dizer o quê.
Tenho é vontade de juntar letras, juntar palavras, juntar migalhas a ver se dá um bolo. É o que se chama de «começar ao contrário».
O que interessa é começar.
Tal como diz na Bíblia, esse grande best selller de inúmeras edições, «No princípio era o verbo». Contrariamente à ambiguidade do que se interpreta na Bíblia, o que se passa na minha cabeça é muito linear. Não tenho um só verbo, mas muitos verbos, muitos sujeitos, nomes e artigos que tento alinhar numa articulação gramatical que se perceba.
Até agora, demasiado confuso.
Tudo bem, também não sei para onde vou. Nem de onde venho.
Não faço ideia onde este texto me vai levar, parece que comprei um bilhete sem destino. E se alguém que está aí me lê, então está a viajar comigo neste passeio que dá a volta ao quarteirão da minha cabeça.
Tendencialmente, nessas voltas ao quarteirão, acabo por quase sempre encontrar algo conhecido. Raramente é o que interessa, ou quem pensamos que interessa.
Confesso que gostava de poder viajar nos pensamentos dos outros, atravessar a porta dos seus pensamentos e manter-me tal e qual como no National Geographic da mente humana, atrás de um arbusto de neurónios. É demasiado indiscreto, eu sei, e por isso a natureza teve o bom senso de nos manter assim, fechados dentro das nossas caixas cranianas, no nosso corpo com as nossas limitações. Felizmente não evoluímos assim tanto... vida unicelular – macacos - homem. E a diferença do 2.º para o 3.º não é assim tão grande.
Considero-me uma darwinista, alguém que acredita que vimos de uma evolução de milhares de anos para servir de elo de transmissão do código genético, que lega a uma próxima geração as informações que são precisas para continuar a existir face às condicionantes do meio onde vive.
A teoria da evolução por selecção natural traz-me algum conforto, e explica-me por hipótese uma série de coisas que de outra forma eu não conseguia entender.
Coisas simples, básicas e generalistas, como a capacidade do homem se orientar no espaço e a mulher ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo – o macho orientar-se-ia no terreno de caça e a fêmea ficava com as crias;
Porque é que as mulheres são capazes de ter vários orgasmos e os homens depois de terem um adormecem de seguida, ou, ainda mais abrangente, porque é que existe infidelidade – para assim que a fêmea acabar de acasalar com um, possa passar para outro de forma a garantir uma gravidez... e para que o macho possa propagar a prole em competição com os outros machos;
Porque é que as mulheres desenvolvem o instinto maternal e o homem o desportivo – porque elas são responsáveis pela sobrevivência da cria e eles defensores do território.
De todos estes exemplos conheço as excepções, e todos eles existem devido à lei da propagação da espécie e ao evolucionismo. Instintos básicos herdados de uma sociedade que não estava ordenada com os valores que conhecemos agora, mas segundo as regras da sobrevivência.
Com o tempo fomos progredindo, eliminando em percentagem as ameaças à sobrevivência da raça humana até sermos O animal dominante, organizámo-nos em religiões, filosofias, políticas, economias, numa sociedade cada vez mais complexa e evoluída tecnologicamente.
Os homens deixaram de caçar, as mulheres saíram de casa para trabalhar, os filhos ficam no infantário, todos saem das suas casas com elevador, banheira de hidromassagem, gás canalizado, TV cabo, internet, ar condicionado... aprendemos o alfabeto, aprendemos línguas, aprendemos a premir as teclas do computador, a juntar letras que formam palavras que são frases que nos trazem até aqui, de regresso à volta do quarteirão, a este momento, onde estou eu.
E tu.

7 comentários:

F3lixP disse...

Wow! Está muito bom este texto que não te levava a lado nenhum!
Já tinha tido alguns desses pensamentos. Também as doenças e acidentes de automóvel são necessários, uma componente evoluida de selecção natural a uma forma de vida em evolução que aumenta o seu tempo médio de vida!
Compllicámos tanto isto!

BatRitinha disse...

F3lix,
És muito generoso na tua apreciação.
Quanto às doenças, acidentes e catástrofes naturais, tens razão, todas elas fazem parte de um processo de selecção natural. Nós é que não gostamos de ver isso dessa forma porque estamos muito pegados ao conceito de que a vida pode ser justa. Como costumo dizer, a vida só é justa quando vou comprar roupa e é tudo apertado...
Beijinhos!
Bat

pinguim disse...

Estamos todos metidos numa grande e maravilhosa complicação chamada Vida!!!
Beijito.

Graphic_Diary disse...

Obrigado pelo passeio nesse teu quarteirão fervilhante!
Tenho saudades tuas (nossas) - estou um egoísta.
Beijo

BatRitinha disse...

Eu também tenho saudades nossas... e das nossas voltas pelas nossas ruas. «E?»
Beijos!

O Regresso de Buck Jones disse...

Cara BatRitinha,

Vir aqui é sempre "empolgante".
Porque nunca sabemos o que iremos encontrar. Esta volta "dentro de nós mesmos" está soberba. Parabéns!

Buck Jones

BatRitinha disse...

Amigo Buck,
Obrigada por vir cá... e por me ler.
Beijinhos!