terça-feira, 5 de maio de 2009

Vó Julha



Hoje acordei com os olhos inchados e quando me vi ao espelho lembrei-me da minha avó paterna.
A minha avó tinha os olhos grandes com pestanas curtas como as minhas. As pestanas curtas devem ter sido a única herança genética que ela me deixou, mas em contrapartida acompanhou-me durante os primeiros 19 anos da minha vida.
Era uma mulher forte de corpo e carácter, sábia e paciente, de cabelo muito branco cujas ondas vincava cuidadosamente com a parte lateral da mão. Peito grande e ancas largas, anunciava a sua presença sempre com um sonoro «Hei!»
Cheirava sempre a lixívia e ao sabão azul e branco com que lavava a casa, e ao Feno de Portugal ou a Lux com que se lavava. Guardava, «para dar cheirinho», sabonetes Rosalface, que eram de luxo, juntos com as melhores roupas e o nosso enxoval, meu e da minha irmã, repartido por igual para que não houvesse desavenças. Porque ela era uma mulher de paz e do povo, que não queria dar trabalho a ninguém.
Trabalhadora e respeitada, uma boa mulher que enchia a casa com a sua presença.
Comentava as novelas como se da vida real se tratasse, e quando um de nós precisava de uma consulta, ia mais cedo para o centro de saúde aguardar vez para que não tivéssemos de nos levantar tão cedo.
Quase sempre trazia um presente dentro de um saco de plástico para as «suas meninas». Um pacote de batatas fritas, um Bollycao, uma pastilha Gorila, um pacote de Capri-Sonne ou, às quartas feiras quando ia ao mercado, um bolo de massa ou um pacote de pevides que descascava pacientemente num montinho que punha em cima do joelho, sobre a bata de flores castanhas que vestia, para depois eu pegar e meter tudo de uma só vez na boca.
Se acaso a minha avó não fosse naquele dia lá a casa, vinha o meu avô saber notícias nossas, e o recado que lhe enviávamos, e que ele fielmente entregava, era sempre o mesmo: «Um beijo prá Vó Julha»!
Tudo o que as netas fizessem era para ela um grande motivo de orgulho que comentava cheia de pontos de exclamação... «Olha-me estas mãos tão lindas!!!», «Que falas tão lindas que ela disse agora!!!»... e ora me beijava as mãos, ora me dava beijihos na «covinha do ladrão».
Se eu fazia um disparate qualquer, dizia «Ai, a rapariga parece que está dôda!».
Quando havia festa, trazia sempre o seu fofo pão-de-ló, muito amarelo por dentro, com uma crosta durinha que barrava com manteiga e onde espetava amêndoas torradas, deixando as restantes no buraco do bolo. Às vezes ficava o bolo cheio de buracos das amêndoas que íamos tirando e roendo.
Quando ia almoçar a casa dela, no final da refeição oferecia-me sempre uma chávena de café Pensal que eu adoçava com açúcar amarelo, numa chávena e pires de porcelana castanha escura, sentindo-me uma pessoa crescida.
No Natal fazia os cuscorões lêvedos, que amassava no alguidar verde de barro, com afinco, honrando o jeito que aprendera com a sua mãe padeira. Eu ia ajudá-la a fritar alguidares de cuscurões, no fundo só punha o açúcar, mas ela elogiava esta tarefa como se fosse a mais importante do mundo, e dizia «Serviço de menina é pouco, mas quem o perde é louco.»
Era uma optimista que tinha sempre as suas frases de conforto: «Ó filha, deixa lá, podia ser pior. Hora a hora, Deus melhora.»
Fugiu de casa, onde tinha mais 6 irmãos e a mãe sob a alçada de um pai tirano, para casar com o meu avô. Passados 50 anos baptizou-se e voltou a casar-se , desta vez por igreja. Eu, a minha irmã e a minha mãe, fomos as madrinhas.
Dizia-me, quando se falava de namoros e rapazes, uma lição que guardo com valor: «Nunca te cases com um homem que não gostes. Já quando se gosta é difícil.» Acho que ela ia ficar contente por a ter ouvido.
Hoje fui ao super-mercado, às vezes aproveito a hora de almoço para fazer umas compras, e andei um pouco pelos corredores. Parei em frente à prateleira dos sabonetes e peguei num. Como o Rosalface me cheirou a saudade!

4 comentários:

anareis disse...

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F3lixP disse...

Vivam as Vós Julhas que é do melo que de pode ter!
A minha ainda por cá anda e já tivemos momentos desses mas.o tempo tratou de trazer formas de afastamento, O tempo deixou-me sem tempo!

BatRitinha disse...

F3lix, eu também me deixei levar pelo tempo, tinha umas coisas para fazer, agora não, vou lá depois, estou cansada... é sempre assim. Se eu soubesse tinha dado todo esse tempo da minha vida só para estar com ela mais uma vez. Digo-o agora, mas o erro é sempre o mesmo porque somos assim, pensamos que o tempo está lá sempre para nós.
Beijinhos!

O Espírito do Tai Chi disse...

Cara amiga BatRitinha,

Que sorte teres conhecido os teus avós. Infelizmente eu não tive a oportunidade de conhecer os meus. Tudo o que sei deles foi-me contado pelos meus pais.
Há uma ternura latente no que descreves...
Obrigado por partilhares "connosco" estes momentos que viveste.

António Serra